"Meu pensamento parado
Tem quietudes de cegonha
Numa beira de telhado.
-Na grande noite tristonha..."
Do livro “Baladas para El Rey” de Cecília Meireles (pag.90 da Obras Completas, Volume I)
Com prazer e alegria estou hoje nesta Casa, que hoje completa 10 anos, para ocupar a Cadeira número 11 que tem como patrona Cecília Meireles. Era ocupada, anteriormente, pela Sra. Maria Helena Catunda, do município de Conceição do Rio Verde, e que hoje é correspondente desta Academia.
Foi por insistência da Acadêmica Cida Rigotti, minha madrinha, que, enfim, aqui cheguei.
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Após lançar o seu livro Saga Brasileira, que trata da longa luta de um povo por sua moeda, Mirian Leitão, entrevistada por Marília Gabriela na GNT confessou que, após 12 horas de trabalho contínuo de escrita, descansava lendo poesia, exatamente as poesias de Cecília Meireles.
E, portanto, usou como epígrafe de seu livro um trecho de um dos poemas de Cecília:
Porque há doçura e beleza
Na agonia atravessada
E eu quero a memória acesa
Depois da angústia apagada
O poema é o “Desejo de Regresso”, do livro Mar Absoluto que leio por inteiro, agora.
Deixai-me nascer de novo,
nunca mais em terra estranha,
mas no meio do meu povo,
com meu céu, minha montanha,
meu mar e minha família.
E que na minha memória
fique esta vida bem viva,
para contar minha história
de mendiga e de cativa
e meus suspiros de exílio.
Porque há doçura e beleza
na amargura atravessada,
e eu quero memória acesa
depois da angústia apagada.
Com que afeição me remiro!
Marinheiro de regresso
com seu barco posto a fundo,
ás vezes quase me esqueço
que foi verdade este mundo.
(Ou talvez fosse mentira...)
Como sabem, não nasci em Caxambu. Vim de Niterói, cidade do Estado do Rio de Janeiro e de lá trago as memórias antigas. A Segunda Guerra Mundial, que para nós, família recém-chegada da Alemanha, trazia alguns problemas, como por exemplo, não conseguir tickets básicos para alimentação e ter as casas constantemente apedrejadas porque, enfim, éramos os agressores.
De um lado da rua Mario Viana, em Santa Rosa, situava-se a casa de minha avó materna, América, que recebeu este nome em agradecimento à terra onde a família aportou, e do outro a de minha avó paterna, Martha.
Aquele pedaço de bairro era a nossa casa. O armarinho de dona Sofia, a escola de dona Maria Carneiro e o atravessar da rua que, para mim, era como ir à Lua ou Saturno, acompanhada de alguma tia ou tio me carregando ao colo, para ser ninada, após o almoço, na cadeira de balanço da varanda, por tia Ernestina, enquanto ela cantava nesta rua, nesta rua, mora um anjo...
Quando fiz quatro anos a família mudou-se para Belo Horizonte, pois meu pai, que trabalhava com meu tio político, o Senador Carlos Alberto Lucio Bittencourt, nascido nas Minas Gerais, precisava estar a seu lado.
Nesta cidade vivemos alguns anos, odisseia que mais tarde, na década de setenta, repeti com meu filho Thiago, de 2 anos, e seu pai, Renato Thomaz da Silva, que fora dirigir o bureau da Vale do Rio Doce na cidade.
Em lá estando, resolvi com Thiago, que já fizera quatro anos, refazer um pedaço dos caminhos de Guimarães Rosa em Grande Sertão, Veredas, livro que li, na fazenda em Silva Jardim, de João Batista da Costa, vice-governador cassado do Estado do Rio, enquanto descansava da saída do Doi Codi de São Paulo, após os intermináveis interrogatórios e prisão .
Fomos a Cordisburgo, onde conhecemos a Casa Museu de Guimarães Rosa, ainda simples, com Manuelzão sentado do lado de fora a garantir que a memória do vivido estaria salva.
Percorremos o Tejuco, com suas terras vermelhas, cujo pó e sabor vim respirar e sentir de novo em Caxambu. Foram dias e dias de carro parando em pequenos hotéis e pensões onde, à noite, lia, para apaziguar o coração das surpresas da vida encontrada, Cecília Meireles: principalmente o Romanceiro da inconfidência, onde tem o belo poema “Da Bandeira da Inconfidência”:
"Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta,
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda!)”
De dia era o encontro com a reinvenção da palavra de Guimarães Rosa, encontrada no linguajar de cada um dos moradores da região; à noite era o retorno ao passado, onde Minas fora reinventada pelos Inconfidentes e repousava no romanceiro desfiado verso a verso por Cecília.
Visitamos a gruta de Maquiné, a mina fechada de Morro Velho, onde num trem meu filho cismou em comer a maçã que um senhor devorava, mesmo eu estando com frutas variadas na bolsa. Mas criança...
E de repente senti o perfume da “seda azul do papel/ Que envolve a maçã”, letra da música “Trem das Cores”, cantada por Caetano Veloso. Lembram do antigo papel de seda azul que embrulhava, antigamente as maçãs e peras e deixavam seu perfume em nossas mãos?
Minas é uma ferida cinzelada em meu corpo, de onde não brota sangue mas orvalho de café; um estado de espírito, como afirma Rosa, com sabor à queijo fresco e leite tomado após a ordenha; a cicatriz amável que define o roteiro de minha paragem, os cheiros, os sabores o arredondado das montanhas, curvas suaves que procuram inventar planícies e constituem a minha geografia de antiga pessoa do mar.
Nesta cidade mineira de Caxambu cheguei por puro apaixonamento. Há 21 anos aqui estou e é onde pretendo morrer, destino inevitável que, no entanto, procuro protelar porque é aconchegante estar em casa.
Desde criança, com primos, tios e pais frequentávamos a cidade de Caxambu, sem saber que aqui seria meu porto, afinal.
É com lamento que não posso fazer parte das memórias familiares desta terra onde sinto que cheguei em definitivo, por escolha, mas com irrevogável atraso. Para compensá-lo costumo ouvir as histórias contadas por seus habitantes e, com a autorização destes, publicá-las. É minha maneira de resistir à passagem do tempo, compensar o que foi perdido e louvar a Memória como patrimônio da humanidade.
Foi com prazer que conheci a felicidade de sentar ao lado de um fogão a lenha da casa da Maria José e do Celso Machado, tomar o café coado no coador de pano, tradicional nas minas gerais, café já adoçado, e comer bolinhos de chuva feitos na hora por Zezé, enquanto seu marido contava-me sua paixão de jovem por Bárbara Heliodora, a "Heroína da Inconfidência Mineira”, casada com o inconfidente Alvarenga Peixoto.
“Dona Bárbara Heliodora
Toma vida noutros mundos.”
Do enterro de Bárbara Heliodora no livro “Romanceiro da inconfidência”.
Dizia-me, quase sussurrando, sobre um misterioso tesouro que eu poderia encontrar até em cavar um buraco para colocar um mourão, proveniente da passagem das mulas abarrotadas com os quintos de ouro, levados de São João Del Rey, Ouro Preto, para o Rio de Janeiro.
Que ao lado de minha casa houvera um entreposto onde um senhor, recém chegado de Portugal com sua filha e esposa, enterrava estes ouros após matar os tropeiros.
Por mais que eu replicasse que não havia nenhum documento histórico que comprovasse que às margens do Ribeirão do Glória, que corre atrás de minha casa, no Vale das Colinas, por dentro do Pingo D´Água, local de lazer do Hotel Caxambu, passavam as tropas com os ouros do Reino Europeu, ele não se intimidava e enriquecia sua história com detalhes de fazer crédulo o mais incrédulo dos seres.
No entanto, ao plantar um pé de canela encontrei este imenso cravo, proveniente talvez da antiga estrada de ferro, que parava em Caxambu, no local hoje vulgarmente conhecido como linha. Cravo este que mostro a vocês e não me deixa mentir.

Vejam bem: o buraco feito para plantar o pé de canela media mais de 50 cm de profundidade. Além dele, pois ao sentir a cavadeira contra a resistência do metal, o trabalhador aprofundou a cova, em busca talvez de alguns mistérios cultivado pelas mentes simples. E estava lá, então, este cravo cuja memória foi guardada por camadas e camadas de terra depositada pelos anos.
É esta memória que Caxambu precisa recuperar de si mesma. Caxambu, uma cidade construída por gentes de várias partes do mundo que retrata a miscigenação de raças e povos recebidos não só do Brasil como da Europa. Urge que se privilegie a formação de um Museu da Memória e minha proposta é que esta Casa se incumba disto e, desde já, me ofereço para registrar em gravação de áudio e vídeo os depoimentos dos que ainda estão vivos e nos legaram um patrimônio de conhecimento a ser ainda resgatado. Para agilizar, desde que não contamos com espaço físico – vejam que já me incluo entre os pares- Ana Laura Diniz criou na internet o espaço Museu da Memória onde os contares sobre o passado serão registrados, à semelhança da Escola dos Annales da França, onde se pratica a Nova História, a que não se baseia apenas nas fontes primárias de informação como cartoriais e jornais, mas sim no depoimento e na lembranças dos que herdaram a história dos tempos.
Já está postado lá, este relato que faço agora, a foto do cravo, o relato da Ana Laura Diniz e um link para a página de Lysandro Carneiro Guimarães. Solicito aos amigos e colegas que permitam a postagem de seus discursos de posse nesta Academia e demais documentos que permitam recuperar a memória de uma cidade que tem muito o que contar.
Cecília, como eu, nasceu no Rio de Janeiro. Deixou o acontecimento registrado na fala que se segue:
"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.
(...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.
(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano."
Filha de Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil S.A., e de D. Matilde Benevides Meireles, professora municipal, Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 1901, na Tijuca, Rio de Janeiro.
Única sobrevivente dos quatros filhos do casal, foi criada, então, por sua avó portuguesa, vinda das Ilhas dos Açores, D. Jacinta Garcia Benevides. Em 10 de novembro deste 2011 Cecília Meireles completará 110 anos. O mesmo tempo de existência que a cidade de Caxambu festejou ontem, dia 16 de setembro.
Desta avó, Cecília deve ter herdado a tristeza do mar, o apreço pela linguística, fruto da constância das ondas em acarinhar as costas de Portugal e do Brasil. Este Atlântico mar, que nos dizeres da escritora Nélida Piñon, em seu livro “A Força do Destino”, abriga ”um barco que até hoje singra generoso o Atlântico. Ora consolando Portugal, ora perturbando o Brasil...
Tornou-se a língua portuguesa plangente, de índole excessiva, e deseja que usem vinte de seus vocábulos, quando apenas três talvez expressem parte de seus sentimentos...
É nestas horas que a língua, sob tão grave ameaça, ganha dimensões impensadas.
Usa da pena de Camões, Cecília, Machado, Clarice, só para não perecer”.
“Ai, palavras, ai, palavras,
Que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
Sois de vento, ides no vento,
No vento que não retorna,
E, em tão rápida existência,
Tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
E quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai, palavras,
Que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
Principia à vossa porta;
O mel do amor cristaliza
Seu perfume em vossa rosa;
Sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota...
A liberdade das almas.
Ai! Com letras se elabora...
E dos venenos humanos
Sois a mais fina retorta:
Frágil, frágil como o vidro
E mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
Pelo vosso impulso rodam...
Detrás de grossas paredes,
De leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda
Sem peso de ação nem de hora...
_ e estás no bico das penas,
_ e estais na tinta que se molha,
_ e estais nas mãos dos juízes,
_ e sois o ferro que arrocha,
_ e sois barco para o exílio,
_ e sois Moçambique e Angola!
(...)
Ai, palavras, ai, palavras,
Mirai-vos: que sois agora?
(...)
Perdão podíeis ter sido!
-sois madeira que se corta
-sois vinte degraus de escada
-sois um oedaço de corda...
-sois povo pelas janelas
Cortejo, bandeiras, tropa...
Ai palavras, ai , palavras,
Que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem...
-sois um homem que se enforca!
Trechos do Romance “Das palavras aéreas” do “Romanceiro da Inconfidência” de Cecília Meireles .
......................
Esta a língua portuguesa. O idioma. Instrumento fundamental para que possamos expressar nossas idéias e sentimentos, absolutamente hiperbólico nos permite usar de vários sinônimos para expressar a mesma idéia. E que, por mais que ousem, não conseguem empobrecer , apenas acrescentar nos expressões costuradas na pressa do dia a dia das gírias e dos jargões.
Para sua avó, no momento da exumação de seu corpo Cecília realiza oito elegias, À MEMÓRIA DE JACINTA GARCIA BENEVIDES - MINHA AVÓ. Poemas estes que não posso ler sem chorar:
Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.
Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma
claridade da lua.
Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas
pálpebras, e a voz dos pássaros e das águas correr
-sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.
Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis?
no teto?
Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho,
E tristemente te procurava.
Mas também isso foi inútil, como tudo mais.
.......
Minha tristeza é não poder mostrar-te as nuvens brancas,
e as flores novas como aroma em brasa,
com as coroas crepitantes de abelhas.
Teus olhos sorririam,
agradecendo a Deus o céu e a terra:
eu sentiria teu coração feliz
como um campo onde choveu.
Minha tristeza é não poder acompanhar contigo
o desenho das pombas voantes,
o destino dos trens pelas montanhas,
e o brilho tênue de cada estrela
brotando à margem do crepúsculo.
Tomarias o luar nas tuas mãos,
fortes e simples como as pedras,
e dirias apenas: “Como vem tão clarinho!”
E nesse luar das tuas mãos se banharia a minha vida,
sem perturbar sua claridade,
mas também sem diminuir minha tristeza.
....................
Abre o túmulo, e olha-me:
dize-me qual de nós morreu mais.
Os oito poemas que compõem “Elegia” estão no
final do livro Mar Absoluto , de 1945.
Há um constante link entre a poeta Cecília Meireles e a americana Elizabeth Bishop, que também perdeu os pais jovens e foi criada por sua avó, na Nova Escócia. Elizabeth Bishop, que Cecília conheceu durante o tempo em que ela morou no Brasil, no Rio de Janeiro, em Teresópolis e, finalmente Ouro Preto, louva a arte de perder com igual constância e submissão aos fados da vida. Esta semelhança se acentua também na facilidade com que as duas transitam pelos diversos estilos, do classicismo ao modernismo, com substancial foco no medievo europeu.
Neste poema Uma Arte, de Elizabeth , nota-se a mesma angústia disfarçada poeticamente em desprendimento dos bens afetivos e materiais:
“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “
A tradução é do poeta Paulo Henriques Britto.
No poema “Cenário” do “Romanceiro da Inconfidência” Cecília nos remete paisagens de Minas, sempre reveladas em nossas passagens de carro quando em viagem.
Eis a estrada, eis a ponte, eis a montanha
Sobre a qual se recorta a igreja branca.
Eis o cavalo pela verde encosta
Eis a soleira, o pátio, a mesma porta.
E a direção do olhar. E o espaço antigo
Para a forma do gesto e do vestido.
E o lugar da esperança. E a fonte . E a sombra.
E a voz que já não fala, e se prolonga.
E eis a névoa que chega, envolve as ruas,
Move a ilusão de tempos e figuras.
_ A névoa que se adensa e vai formando
nublados reinos de saudade e pranto.
O mestre Paulo Rónai disse sobre ela:
"Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo... A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea.”
Afirmo eu: poucos poetas no Brasil herdaram como se de nascença a índole da língua portuguesa que se transmuta de ancestral a moderna e paradoxalmente, atemporal e intemporal. E um exemplo do que falo está no poema
“Estirpe”:
"Os mendigos maiores não dizem mais, nem fazem nada.
Sabem que é inútil e exaustivo. Deixam-se estar. Deixam-se estar.
Deixam-se estar ao sol e à chuva, com o mesmo ar de
completa coragem,
longe do corpo que fica em qualquer lugar.
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E seu corpo não sofre nem goza. E sua mão não toma nem pede.
E seu coração é uma coisa que, se existiu, já esqueceu.
Ah! Os mendigos maiores são um povo que se vai convertendo em pedra.
Esse povo é que é o meu."
Cecília casou-se com o artista plástico português Correia Dias, que suicidou, e com quem teve três filhas.
Viúva, casou-se com Heitor Grillo.
Educadora, folclorista, jornalista, foi dinâmica e ativa na cultura brasileira durante toda sua vida.
E hoje é o meu dia de ocupar a Cadeira que leva seu nome, Cecília Meireles. Eu, poeta interrompida por uma crítica do poeta Manuel Bandeira e recomeçada por ânsia de provar a mim mesma que poderia. Leio então um poema: “ ah, os metais”, de meu livro “Imaginário Eixo”, lançado durante encontro de escritores em São Lourenço e já esgotado.
a montanha simples silêncio
cicios de vale na brisa
sabia o ar vagos metais
crispavam dissonâncias
entre agudas oitavas de monte
e planícies. e a voz, sem ais.
ah, sim! o hiato a percorrer
a descida. a probabilidade,
emudecida perspectiva.
nada grave demais. um assombro,
nenhuma responsabilidade.
pois os frutos nasciam lá
em algures sítio distante.
de um modo geral
bem poderia ser no mar.
falaram de encontros.
pois bem não os ouvira
nem quando a folha caiu
e disse do outono amanhã.
ah, as palavras ancestrais
que de gozo ao nascer morriam!
sabiam-se suicidas, pasmas.
adulando amarelos, sombras vagas
imperceptíveis sinais
mas nada grave demais.
se um dia pesou silêncio
nesta estúpida algaravia
de sons de marés e cheiros
do vento quebrando copas
e de chuva a marejar
foram as vogais. consoante
estreitam a glote, embaraçam.
travam o ar. ah! os metais.
Romancista e contista com livros esgotados, nada tenho a mostrar como prova da minha escrita, a não ser isto que leio neste momento: colcha de retalhos, onde estes versos de Cecília, do poema “Motivo”, do livro “Viagem” ocupam a reivindicação para que a memória, bicho peçonhento, filha do barroco, sempre perdida em volutas, mais do que nunca, seja resgatada:
“Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.
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